Continuação...
A maturação dos investimentos (expansão da capacidade produtiva) é observada apenas no último trimestre de 2004. Não obstante, aparentemente estimulado pelo forte crescimento da UCI, o Banco Central iniciou a política de restrição da demanda, interrompendo o crescimento, o investimento e o processo de expansão da capacidade produtiva.
Em 2007, ao contrário do registrado em 2003/2004, o período de forte crescimento foi precedido por um período de leve retomada da atividade. A retomada gradual do crescimento em 2006 estimulou o investimento. Ou seja, uma quantidade relevante de investimentos foi realizada antes da intensificação da atividade industrial em 2007, o que permitiu que a produção industrial crescesse sem gerar pressões adicionais relevantes sobre a UCI.
A maturação dos investimentos realizados em 2006 possibilitou o aumento da capacidade de produção concomitantemente à aceleração do ritmo de crescimento da atividade. Note-se que a partir do primeiro trimestre de 2007 o crescimento das horas trabalhadas se acelera, aumentando a distância entre as duas séries. Esse descolamento entre as séries de horas trabalhadas e de UCI representa o crescimento da capacidade produtiva da indústria. No fim de 2007 - e mais especificamente neste início de 2008 -, esse processo torna-se mais evidente com a continuidade do crescimento da atividade industrial e, concomitantemente, estabilidade da UCI.
A Sondagem Industrial é uma pesquisa qualitativa que procura medir e evolução trimestral da indústria. A pesquisa apura a percepção do empresário com relação ao desempenho de sua empresa e a expectativa com relação ao desempenho futuro. A pesquisa apura tanto a evolução da produção como o nível de UCI.
Assim como no caso dos Indicadores Industriais, há uma diferença na natureza entre os indicadores. A UCI é divulgada como percentual e a evolução da produção através de um indicador de difusão que varia entre 0 e 100 pontos. O indicador é de base móvel e retrata a variação da produção no trimestre na comparação com o trimestre anterior. A base do indicador é 50. Valores acima de 50 pontos indicam crescimento e valores abaixo de 50, redução. Assim como no caso anterior, transformamos os percentuais em indicadores de difusão.
Em síntese, as evidências aqui apresentadas sugerem que a indústria brasileira vive um momento de maturação de investimento, logo, de expansão da capacidade produtiva. Mais importante, a expansão da capacidade produtiva tem sido suficiente para que a oferta cresça e acompanhe a expansão da demanda. Desse modo, ainda que a demanda doméstica mantenha-se em crescimento, a capacidade de oferta da indústria está se expandindo rápido o suficiente para se evitar um desequilíbrio entre oferta e demanda e o conseqüente acirramento da inflação.
A expansão vigorosa dos investimentos a partir de 2006 - um ano antes da intensificação da atividade industrial - foi essencial para que a capacidade de oferta se ajustasse a tempo de evitar um desequilíbrio entre o ritmo de crescimento da oferta e o da demanda. Ou seja, o aumento dos investimentos foi capaz de aumentar a capacidade produtiva da indústria antes de se atingir o nível de capacidade plena. Isso explica a estabilidade do nível de utilização da capacidade no fim de 2007 e início de 2008.
Cabe ressaltar que o nível de UCI atual acima dos níveis registrados em 2004, quando o Banco Central decidiu intervir - aumentando as taxas de juros - com a justificativa de se evitar um acirramento da inflação. Isso tem levado alguns analistas a sugerir que a indústria brasileira encontra-se muito próximo à sua capacidade plena, o que impediria a oferta de acompanhar o ritmo de crescimento da demanda e requereria nova intervenção do Banco Central.
Não obstante, como mostrado nessa nota, a análise comparativa da evolução da produção e/ou horas trabalhadas e da UCI apontam para outra direção. O acirramernto da inflação não decorre da incapacidade da indústria em atender a demanda crescente. O crescimento da capacidade produtiva da indústria tem permitido o crescimento da oferta sem gerar pressões inflacionárias.
Fonte: Notas Ecnômicas - CNI - Ano 9 - Número 2 - 29 de maio de 2008.
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